quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Igreja da Consolação

Foi em 1799 que a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e São João Batista idealizou a construção de uma primeira capela, a beira da trilha - atual Rua da Consolação. Este primeiro templo foi decorado por Edmundo Cagni em 1885 e contava com trabalhos realizados pelo pintor Oscar Pereira da Silva, representando “A visita de Santa Isabel. A Natividade e Apresentação do Senhor. O pintor Benedito Calixto proveu o recinto eclesiástico com telas sobre São Thomas de Aquino, São Boaventura, São Tarcisio e Santa Thereza, além de cenas dos Discípulos de Emaus, que é uma passagem bíblica.

O local, então isolado, era propício ao tratamento de doentes acometidos pelo mal de Hansen (lepra), um dos objetivos primordiais da irmandade.

O primeiro patrono construtor da Consolação foi o coronel Jesuino José Pascoal, que iniciou a construção em de 5 de julho de 1890 a terminou em 4 de maio de 1899.
Com a necessidade de sua ampliação e o ardente desejo de seus paroquianos, a Igreja da Consolação compraria terreno de propriedade da senhora Veridiana Valéria da Silva Prado sobre o qIgreja da Consolaçãoual havia hipoteca da Prado Chaves & Cia, empresa exportadora de café. A área compreendia 38 metros de frente para a rua da Consolação; 32 metros, em linha quebrada com os terrenos de Henrique Cappelano. O preço acertado foi de quarenta contos de reis e a lavratura do documentos foi feito em 13 de março de 1909, no 2º Tabelião ao livro de notas 222, folhas 33 e seguintes. Ao ato compareceram o coronel Francisco Antônio de Souza Queiroz, vice presidente do Banco do Comércio e Industria de São Paulo; o conselheiro Antônio da Silva prado, procurador da outorgante além do pároco, padre Virgílio Morato Gentil de Andrade.

Apesar da compra do terreno tonou-se necessário a ampliação do terreno, porque a área adquirida confrontava com o Seminário das Educandas do Sagrado Coração de Jesus. Para resolver a questão, fez-se requerimento a câmara, solicitado o avanço da frente da igreja até o leito da rua da Consolação enquanto os paroquianos solicitavam ao pároco que o novo templo fosse construído no mesmo local.

A matriz provisória seria benta em 14 de agosto de 1909, mercê da provisão dada por Dom Duarte e Silva.

A obra da Igreja da Consolação obedece ao estilo neogótico, com amplos vitrais cúpula que foi decorada pelo artista alemão Hans Bauer, cobrindo uma área pictórica de 500metros quadrados.

Bibliografia : Consolação uma reportagem Histórica – Clóvis de Athayde Jorge

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Anhangabaú, a rua que virou avenida e foi transformada em bulevar

A rua Anhangabaú era o outro lado a continuidade da rua Formosa só que em direção ao viaduto de Santa Ifigênia. Foi uma rua projetada conforme descrito pela lei n°560 de dezembro de 1901 onde o executivo municipal ficou autorizado “a abrir a projetada rua Anhangabaú”.

No ano de 1904 através da lei nº 743 ficou declarada de utilidade pública os prédios e terrenos necessários ao prolongamento da travessa do Paissandu atual rua Abelardo Pinto até a rua Anhangabaú, hoje parque de mesmo nome. Em 1906 a administração municipal foi autorizada a realizar melhoramentos na rua. Em março de 1910 os acordos para desapropriação começam a se efetivar.praca_pedro

Quando se faz necessário remover o mercado da rua São João para outro local tendo em vista a necessidade de alargamento para que a rua São João se tornasse avenida, uma das sugestões foi a lei nº 1326 de junho de 1910 que declarava de utilidade pública os terrenos da rua Anhangabaú necessários a construção do novo mercado que substituiria o da rua São João. No mesmo ano a lei nº 1339 de 27 de julho autorizava o prefeito “a adquirir o domínio direto do terreno da rua Anhangabaú, de propriedade do Dr. Antônio Melchert por onde deve passar o viaduto de Santa Ifigênia. Já a lei nº1364, de 25 de novembro de 1910 autorizou o Prefeito a indenizar o  proprietário do prédio nº 49 da rua Anhangabaú. A lei nº 1445 de 12 de agosto de 1911 declarou de utilidade pública parte do prédio nº 37 da rua Anhangabaú e parte do prédio de nº 19 a 23 da rua do Lucas. Onde mais tarde se instalaria parte da Praça Pedro Lessa.

As desapropriações para adequar o centro de São Paulo a novos tempos eram caras e apenas algumas, de proprietários mais habilidosos nas artes de comerciar imóveis, é que aparecia a negociação com preço por metro quadrado. Temos como exemplo o caso do “acordo feito com o Sr Antônio A.Leite Penteado e Antônio Paes para o prolongamento das ruas Anhangabaú e Senador Queiroz respectivamente a um custo de 25mil reis o metro quadrado.”

Em junho de 1913 a lei municipal nº 1711autoriza o prefeito a adquirir do respectivo proprietário um terreno com 1.173,50cm, necessários para o prolongamento da rua Anhangabaú.”. Esta desapropriação custou aos cofres da municipalidade “cinqüenta mil reis o metro quadrado”. Exatamente o dobro do metro quadrado pago a Antônio Leite Penteado e Antônio Paes.

O melhor referencial encontrado para se ter certeza da localização da extinta rua Anhangabaú está na resolução nº 66 de 1917 onde denomina-se “Praça do Correio” a praça em forma retangular, situada na Av: São João, no ponto de conjunção com as ruas Formosa, Seminário e Anhangabaú.

Na verdade a rua Anhangabaú só existiu entre 1904 e 1940 quando deu lugar ao Bulevar do Valle do Anhangabaú.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Nas vizinhanças da Praça da República no sec. XX

Quem passa apreçado pela Avenida Ipiranga entre a Avenida São Luiz e a Avenida da Consolação não pode imaginaaltr a transformação que este pedaço de São Paulo passou no começo do século XX.

As ruas acanhadas e os sobrados tiveram de abrir passagem para que as ruas se transformassem em retas que se cruzam e permitir que as avenidas nascessem. Quem conta bem esta história é Jorge Americano em seu livro São Paulo nesse tempo (1915-1935). Atrás da Escola Normal Caetano de Campos, que hoje se transformou na Secretaria Municipal de Educação, existia o Jardim de Infância, onde o autor estudo e hoje sede cada vez mais espaço para as estações do metrô. 

“A que é hoje Avenida Ipiranga de ponta a ponta, era estreita e tinha dois nomes. A parte que se conta da esquina da Rua 24 de Maio para o lado da Estação da Luz, chamava-se Rua Ipiranga. A parte que se conta da Escola Caetano de Campos para trás chamava-se rua Epitácio Pessoa, seguia em direção à Igreja da Consolação e fazia uma curva para a direita, tornando-se paralela com a Rua da Consolação, trecho este que ainda lhe conserva o nome”.Esc_NormalCaetano de Campos 1940

Para quem não conhece hoje a Avenida Ipiranga termina na Avenida da Consolação. Porém, para que este trecho fosse aberto se fizeram necessárias muitas desapropriações. Graças a elas é que a Rua Epitácio Pessoa é hoje uma pequena rua entre a Avenida Ipiranga e a Rua Rego Freitas.

“A rua São Luiz, estreita, ensombrada de jacarandazinhos, com lindos jardins de casas residenciais, parava na Rua Epitácio Pessoa, interrompida pela área do Jardim de Infância, traseira à Escola Caetano de Campos”.

A Avenida São Luiz ainda hoje tem no meio os jacarandás que hoje são arvores frondosas que pontuam de verde o árido concreto de seus edifícios na sua maioria com arquitetura da segunda metade do século XX. Lago e Jd da praça da rep.1920

As transformações neste pedacinho de São Paulo começaram com a lei n° 272 de 28 de agosto de1896, onde foi autorizado “melhoramento na rua do Ipiranga, na parte compreendida entre a rua São Luiz e Araújo”. Hoje a rua Araújo é uma pequena rua que principia na Praça da República exatamente em frente ao Jardim de Infância do Colégio Caetano de Campo e termina trezentos metros acima na Praça Darci Penteado. Alias esta praça também fez parte da idéia de “europeizar”, a malha urbana do centro de São Paulo. Por causa desta proposta de tornar europeu o centro de São Paulo é que as ruas passaram a ter treze metros de largura e as avenidas trinta metros. Claro que esta evolução não acompanhou as calçadas, onde os pedestres continuam caindo nos buracos e nas diferenças dos calçamentos, é só não olhar direito para o chão.alt

Para acompanhar toda esta transformação a lei n°542 de 08 de outubro de 1901 “autoriza o prefeito a mandar executar os serviços e melhoramentos e embelezamentos da Praça da República.” Claro que no correr dos tempos a praça tem sido sistematicamente reformada e adequada aos novos tempos das estações do metrô, sem perder o charme das feiras de artesanatos nos finais de semana. Porém, recebendo todos os anos a “Virada Cultural Paulista”, onde a praça se tona um grande lixo ao termino de cada show.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Praça Júlio de Mesquita. A hospedagem da Bella Époque

A principal conseqüência da Lei de Terras de 1850 para as cidades brasileiras foi constituir e legitimar a mercantilização do solo, mediante o ativo posicionamento do Estado em favor dos interesses particulares e especulativos. O estado não viveu apenas, o papel de

“garantidor” das relações jurídicas, mas como promotor e legitimador das transformações.

O regime republicano invadiu a cidade e os proprietários das chácaras, tanto no centro quanto na periferia, parcelaram suas terras, numa febre desesperada para venda de terrenos a crédito

No final do Império já existia na cidade de São Paulo um mercado de loteamento e comércio de terrenos urbanos organizado em termos profissionais desde, pelo menos, a iniciativa de Glette e

Nothmann de parcelamento da chácara Mauá e abertura do loteamento dos Campos

Elíseos, em 1870.

Por outro lado, a forte instabilidade do mercado internacional de café, sujeito a crises de superprodução e conseqüente desvalorização do produto, forçou à diversificação de investimentos, inclusive em terras urbanas cuja demanda era incrementada pelo intenso fluxo imigratório. Simultaneamente, do atrelamento da economia agroexportadora ao sistema financeiro, fonte dos financiamentos para o plantio e a comercialização do café, em relação ao qual o Estado servia, em última instância, como elemento garantidor, decorreu a institucionalização, no governo Bernardino de Campos (1902-4), da hipoteca de imóveis urbanos - praticada,mas pouco usual até então: “Além das atividades industrial e comercial, o imóvel urbano vai ser considerado para investimento, seja como bem hipotecável para crédito agrícola ou industrial, seja como fonte segura e rentável para garantir o fazendeiro de perdas futuras, seja para o próprio intermediário do café ou mesmo para o comissário” (Barbosa, 1987, p. 200). É neste senário econômico que se negociam as primeiras desapropriações para o alargamento da Avenida São. João ( Vide texto sobre a Primeira Avenida de São Paulo neste Blog)

Nesse contexto, adquirem novo sentido as reformas urbanas das primeiras décadas

do século XX, pois não obstante o incremento populacional da cidade e os problemas de infra-estrutura urbana dele decorrentes, como a falta de saneamento, habitação, transporte e áreas de lazer (para muitos dos quais o poder público encontrará solução na regulamentação), o urbanismo será empregado, no mais das vezes, como técnica para o “embelezamento” da cidade, com base em modelos europeus, de maneira a valorizar a propriedade urbana e estimular novas formas de aplicação de capital (Barbosa, 1987, p. 186): “a cidade estava se aprontando, se embelezando para que seus imóveis tivessem mais que um valor de uso, mas um valor substancial de troca” (Barbosa, 1987, p. 193). Um bom exemplo destes tempos de mudança está na desapropriação e na construção da Praça Júlio de Mesquita. Lei n.º.º 2.491 de 30 maio de1922alt

declara de utilidade pública diversos prédios e terrenos situados às ruas General Osório, Conselheiros Nébis, Victoria, São João e Aurora, para prolongamento da alameda Barão de Limeira. Os artigos da lei declaram: “de utilidade pública para serem adquiridos por desapropriação judicial ou amigável “ad referendun” da Câmara os prédios e respectivos terrenos da rua General Osório, nº 141 e 14alt3 e dos de 

n.º.º 147 e 149 da mesma rua; as partes dos terrenos dos prédios da rua Conselheiro Nebias , n.º.º 19,21, 35,37 e 41, os respectivos prédios terrenos da rua Victoria, nº 101 a 109, 148 a 154; os prédios e respectivos terrenos da Rua de São João, n.º.º 176,180, 182, 184, 198, 200 e 202, os prédios e respectivos terrenos da mesma rua nº 222 a 236, a parte do  prédio e respectivos terrenos da rua altAurora, n.º.º 100 e o prédio e respectivo terreno n.º.º102 da mesma rua, imóveis esses que são necessários para o prolongamento da alameda Barão de Limeira até a Av: São João, alargamento desta avenida e abertura de uma praça no final do dito prolongamento ao entroncar-se com a avenida praça essa limitada pelas ruas Victoria e Aurora, e a que se refere ao art 4° da lei n.º.º 1.596 de 27 de setembro de 1922.

Assim, a desapropriação de uma vasto espaço que viabilizaria a seqüência do alargamento da Avenida São João também colocaria um pouco de beleza e valorização dos imóveis.

Depois desta reforma a jovem praça passou a ser um lugar aprazível para que se construíssem hotéis. E lá estão eles no entorno da Praça ainda hoje com as suas arquiteturas de época bem conservadas.

Bibliografia

Di Monaco, Flavio Eduardo O Banquete do Leviatã: direito urbanístico e transformações da zona central de São Paulo (1886-1945) Tese de doutorado apresentada a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - 2007

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As Ruas a caminho do Centro Novo

No começo do século XIX os caminhos ainda eram construídos de forma espontânea, sem planejamento, ligando a região central aos arredores da cidade de São Paulo. A Câmara da cidade, reiteradas vezes, pediu pela participação dos moradores na construção dos caminhos, os quais se recusavam a participar ou enviar mão-de-obra.

O desenvolvimento da cidade levou a população a ocupar as terras que ficavam além do rio Tamanduateí, Anhangabaú, Pinheiros e Tietê. Este avanço para além dos rios exigiu a criação de pontes a fim de facilitar o deslocamento dos moradores destas regiões para o centro da cidade.

Até 1892 na região central destacava-se a Ponte do Lorena, sobre o Anhangabaú , que ligava a Ladeira do Piques com a Ladeira da Memória, atual Praça das Bandeiras. O caminho que ligava São Paulo a Aldeia de Pinheiros era conhecido como estrada do Araçá, hoje avenidas Consolação e Rebouças. Após 1892 o Viaduto do Chá passou a ligar os dois lados da cidade. Durante todo o final do século XIX e início do século XX a paisagem urbano a do centro de São Paulo, passou a ser sistematicamente modificada adaptada, construindo uma cidade nova para uma nascente riqueza do café e da indústria.

O crescimento da vila e posteriormente da cidade fizeram com que as ruas existentes fossem melhores preparadas, bem como a abertura de novas ruas e becos que facilitavam o acesso dos moradores aos campos e ao litoral.

Assim, a Lei nº 208 de 09/03/1896 autoriza concerto e calçamento de diversas ruas. No §1º - Retificação dos níveis do passeios do Largo do Arouche, entre as ruas Dona Maria Theresa e Sebastião Pereira, Rego Freitas e Amaral Gurgel. No § 3º Calçamento a paralelepípedos da travessa do Paissandu e da rua Barão de Itapetininga, entre o Viaduto do Chá e a rua Conselheiro Crispiniano.

A lei nº 272 de 28 de agosto de 1896 autoriza melhoramentos em diversas ruas. Entre elas na rua do Ipirangacircolo-italiano, na parte compreendida entre a rua São Luiz e Araújo

Na lei nº 397 20 de maio de1899 ficou determinado que passem a denominar-se rua Dr Rodrigo Silva a da rua Tabatinguera e rua Coronel Xavier de Toledo travessa e rua do Paredão.

Já na lei n.º° 412 08 de agosto de1899 ficou autorizado os melhoramentos e embelezamentos da parte baixa do largo do Arouche

A lei n° 413 08 de agosto de1899 autoriza as desapropriações de um terreno ocupado por um jardim à rua Major Diogo,canto da Santo Antônio um terreno e rancho existente na entrada da rua Leite de Moraes em junção com a rua Voluntários da Pátria, um terreno e parte da casa na rua Araújo, esquina da Consolação pertencente a João Antônio de Oliveira Neto.

A lei n° 300 de 1897 autoriza melhoramentos na Pça da República autorizado pelo presidente da câmara Antônio Proost Rodovalho

Na lei n° 385 21 de março de 1899 fica autorizado ao prefeito a mandar construir passeios na saída do Viaduto do Chá ao lado da rua Barão de Itapetininga;

A Lei n° 413 08 de agosto de 1899 autoriza o prefeito a desapropriar um terreno e parte da casa na rua Araújo , esquina da rua da Consolação

Lei n° 443 de 18 de dezembro de1899 autoriza o prefeito a melhorar a rua Xavier de Toledo.

A lei nº 451 de 13 de fevereiro de1900 autoriza o prefeito a mandar calçar a rua São Luiz

A lei nº 458 17/04/1900 autoriza o prefeito a desapropriar em terreno á rua do Ipiranga, esquina da rua Rego Freitas, para a regularização das mesmas ruas.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nova Luz entre Zumbis e Demolição

O administrador público derruba constrói, e vai cavando e levantando a seu bel prazer sem consultar quem vive no lugar.

Agora é a vez da “Nova Luz”, que deveria chamar-se “ Nova Demolição”. Sim porque, a prefeitura para Nova Luz crack_tltomar uma atitude contra a degradação humana, zumbis do crack, que é o maior problema do bairro, está demolindo, demolindo e demolindo prédios que poderiam ser aproveitados. É a continuidade da filosofia bota abaixo e faz de novo. Sem pensar nos custos múltiplos que isso tem. E pensar que São Paulo no começo do Século XX já fazia este tipo de mudança.

“Seguiu pela esquerda (Como é estranho! Não entendo mais nada. Ah! sobrou uma face da Rua Bráulio Gomes, a que tem a capelinha na esquina da Rua Xavier de Toledo. Mas, será possível? A capelinha também desapareceu!”) 

Quis orientar-se ao entrar na rua da Consolação (“Está ali a mureta da ladeira que vai para o Piques”).

Mas a Biblioteca Municipal Mário de Andrade atrapalho-o ( “terá sumido o arvoredo do Jardim do Nicolau Sousa Queirós? Não. Ainda estão as palmeiras perto daquela estátua. Camões?”).

Deus mais uns passos e reconheceu, na esquina, outras árvores (“Estas, seguramente, são do jardim do Nicolau Sousa Queirós”)

Olhou para o lado oposto (“Era a casa de José Carlos de Macedo Soares, na esquina da Rua Major Quedinho.Na outra esquina o Colégio Sagrado Coração de Jesus, para meninas. Mas sumiu a casa de José Carlos, sumiu o colégio, e sumiu a rua Major Quedinho! Ah! não! ao menos a rua Major Quedinho está ali adiante”)”.(1)

Estas são observações de um morador de São Paulo a quase 90 anos. Assim estamos nós em relação ao trecho proposto como Projeto Nova Luz. 

Será que vamos encontrar alguma Avenida Casper Líbero quanto terminar as obras do metrô linha Amarela? Por hora o que existe são buracos e tapumes.

Entre a Brigadeiro Tobias e Av Prestes Maia, mais crateras que em algum momento poderá ressurgir em uma nova estação de Metrô.

Na rua Mauá entre a rua dos Protestantes e General Couto de Magalhães mais uma demolição grandiosa. No aviso a indicação:

“Estamos construindo a futura sub-prefeitura da Luz”. Mas o pior, o pior mesmo está em Frente a Estação de Trens Júlio Prestes.

Lá os zumbis da “cracolândia” conseguiram um espaço murado para se ferir e se matar pela droga sem que ninguém veja.

A velha rodoviária está demolida e fica entre os muros dos prédios seus vizinhos. Um espaço aberto para o unovaluz1so da droga como a saída do “Minhocão” em frente a Rua Barão da Joatinga em Santa Cecília.

Encaminhamento das questões sociais não dá voto. Não fica para posteridade e não facilita o desvio de verba. Então, é melhor demolir e reconstruir do que buscar saída para as fábricas de zumbis do crack que aumentam a cada dia.

(1) Americano, Jorge – São Paulo nesse tempo 1915-1935

terça-feira, 7 de setembro de 2010

São João a Primeira Avenida

O desenvolvimento de São Paulo ocorreu no final do séc. XIX, com o crescimento do capital gerado pela economia cafeeira, somado a presença de imigrantes e migrantes como força de trabalho. O excedente do capital da lavoura cafeeira pagava a industrialização e a nascente estrutura de transporte que se apoiava nas ferrovias. (1)

A industrialização trouxe o aumento populacional e de atividades, tornando as relações econômicas e sociais mais complexas e mais exigentes.

Era urgente que a cidade deixasse de ser uma pequena cidade para se tornar uma metrópole. Porém, o incremento de atividades no espaço urbano implicou em grandes problemas, como a falta de habitações, saneamento, energia, estruturas de circulação e equipamentos de transporte.(2)

O Centro passou por uma remodelação no início dos 1900, período da implantação dos bondes elétricos pela Light and. Power Limited.

Para desenvolver os jovens loteamentos a oeste, não bastava isentar o loteador de pagar impostos, como o caso da lei 391 de 15 de abril de 1899 que “torna extensiva a isenção de impostos as ruas abertas pela Baronesa da Limeira, situadas no prolongamento da atual Rua São João.” Para que o progresso formasse bairro era preciso fazer com que os bondes chegassem até lá.

Nos primeiros tempos os caminhos foram sendo construídos de forma espontânea, sem planejamento, ligando a região central aos arredores. Assim, para dar as ruas o rumo dos novos tempos era preciso teA Linha do Bonde em 1915Fig 128r avenidas com trinta metros de largura e ruas com no mínimo 15 metros e de preferência que todas fossem retas formando um tabuleiro de xadrez como as cidades da Europa.

O então prefeito Antônio Prado começa desapropriando através da lei nº 515 10/05/1901 “declara de utilidade publica, para fim de serem desapropriados, as casas e terrenos necessários ao prolongamento da rua entre as do Senador Queiroz e São João.” Foi dada a largada para um novo tempo.

Má idéia? Boa idéia? Discutiu-se se falou. O São João ferveu. O veneno das águas do Acú ressurgiu, espalhou-e pelo ar.

A questão da abertura da Avenida envenenou todas as almas, todos os corações. Dos que eram pró abertura da avenida e dos que eram contra a ganância especulativa e as negociatas. Desapropriações escandalosas . Dinheiro a rôdo. Cada metro de terreno, os olhos da cara. Dos contra, pela insopitável indignação à vista de tanta exploração.

Tudo envenenado pelo valor das desapropriações.

Na Câmara o brilhante vereador Alcântara Machado, tempestuoso, violento, incisivo, falou sobre a extorsão dos cofres públicos contra a desenfreada especulação das célebres desapropriações.

Mas como tudo que é humano, o vendaval passou. A Avenida São João, sugiu embora tivesse custado milhares de contos de reis. (5)

A abertura da avenida foi um grande atrativo para o desenvolvimento urbano do outro lado do Vale do Anhangabaú. Afinal era a possibilidade de fazer as ruas em linhas retas.

Em 1911 começa o governo de Raymundo Duprat que juntou toda capacidade financeira e de negociação da sua administração para “rasgar” a Avenida São João entre a Praça Antônio Prado e a rua Lopes de Oliveira em Santa Cecília. Não foi uma obra para uma administração. Todos os imóveis do lado par da então rua tiveram de abrir espaço para nascente Avenida São João.

Pessoas importantes como Maria Rodovalho Cantinho, filha do presidente da Câmara Antônio Prost Rodovalho, teve de vender mil metros quadrados a administração municipal. Depois foi a vez de Dr. Plinio da Silva Prado e Joaquim Mendonça Filho também venderem os seus metros para que o futuro se fizesse verdade.

O alargamento teria como benefício adicional a interligação entre vários bairros que estavam nascendo como Bela Vista, Santa Cecília, Bela Cintra e Água Branca.

Através da lei nº 1596 de 27de setembro de 1912 é que passa a fazer parte das desapropriações uma “planta do alargamento da rua São João desde a Pça Antônio Prado até a rua Lopes de Oliveira” (Santa Cecília).

Outra situação interessante de ser observada que é que as primeiras desapropriações são pagas por unidade. Porém, um ou outro proprietário, mais esperto, cobra sua desapropriação por metro quadrado. É o caso da lei nº 1615 08 de novembro de 1912 que “aprova o acordo feito pela prefeitura sobre o prédio nº 108 da rua: São João. Área de 927m2 (550mil reis o metro quadrado) DR. Francisco de Pennaforte Mendes de Almeida, onde 259m2 serão efetivamenteAv São João 1916Fig 129 usados para o alargamento da Rua São João”. Os restantes 660 metros quadrados, o mais caro em toda a obra, seria vendido depois a outra pessoa por valor muito menor.

Em 1913 o prefeito é autorizado a negociar com letras da Câmara e o faz através da lei nº 1644 de 07de fevereiro de 1913 que “autoriza o Prefeito a adquirir o prédio nº 282 da rua São João”. E para esta aquisição o prefeito poderia usar “letras da Câmara com juros de 6% amortizáveis no prazo de 50 anos, resgatáveis antes, se convier aos interesses da municipalidade”. Já o prédio nº 192 a lei n° 1651 de 03 março de 1913 “autorizou o Prefeito a adquirir o prédio com pagamento feito em letras da Câmara com juros de 7% a.a.” Até esta data parecia capricho do administrador municipal as seguidas desapropriações na rua São João. Somente em 1913 é que o prefeito esclarece através da lei nº 1679 de 16 abril de 1913 que “ficam declarados de utilidades públicas, a fim de serem desapropriados, os prédios e terrenos necessários para a formação da Av: São João”.

Neste anos “inicia-se o alargamento da Avenida São João, pela demolição na praça Antônio Prado, da Confeitaria Castelões e da Chapelaria Alberto. Encontra o Mercadinho e derruba-o, e, ao sair do Largo do Paissandu, deixa de pé, por longo tempo, o primeiro prédio do lado par. Em 1933 atingiu a praça Marechal Deodoro, aberta nesse tempo, e seguiu até a rua Lopes de Oliveira” (4).

“Era os velhos prédios caindo por terra, demolidos pela picareta civilizadora”. E no lugar delas nasciam grandes espaços que passavam a fazer parte do que vinte anos depois viria a ser as grandes avenidas de São Paulo.(3)

Bibliografia

(1)Bomfim, Valéria Cusinato – Tese Espaços Edificados e Vazios na Área Central da Cidade de São Paulo e a Dinâmica Urbana - São Paulo -2004

(2) Brito, Monica Silveira- Tese Modernização e Tradição: Urbanização, propriedade da terra e crédito Hipotecário em São Paulo, na segunda metade do século XIX

(3) Revista Histórica nº 11 junho/julho e agosto de 2003.

(4) Americano , Jorge – São Paulo Naquele tempo 1915 –1935

(5)) Moura, Paulo Cursino- São Paulo de Outrora – Evocações da Metropole