segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As Ruas a caminho do Centro Novo

No começo do século XIX os caminhos ainda eram construídos de forma espontânea, sem planejamento, ligando a região central aos arredores da cidade de São Paulo. A Câmara da cidade, reiteradas vezes, pediu pela participação dos moradores na construção dos caminhos, os quais se recusavam a participar ou enviar mão-de-obra.

O desenvolvimento da cidade levou a população a ocupar as terras que ficavam além do rio Tamanduateí, Anhangabaú, Pinheiros e Tietê. Este avanço para além dos rios exigiu a criação de pontes a fim de facilitar o deslocamento dos moradores destas regiões para o centro da cidade.

Até 1892 na região central destacava-se a Ponte do Lorena, sobre o Anhangabaú , que ligava a Ladeira do Piques com a Ladeira da Memória, atual Praça das Bandeiras. O caminho que ligava São Paulo a Aldeia de Pinheiros era conhecido como estrada do Araçá, hoje avenidas Consolação e Rebouças. Após 1892 o Viaduto do Chá passou a ligar os dois lados da cidade. Durante todo o final do século XIX e início do século XX a paisagem urbano a do centro de São Paulo, passou a ser sistematicamente modificada adaptada, construindo uma cidade nova para uma nascente riqueza do café e da indústria.

O crescimento da vila e posteriormente da cidade fizeram com que as ruas existentes fossem melhores preparadas, bem como a abertura de novas ruas e becos que facilitavam o acesso dos moradores aos campos e ao litoral.

Assim, a Lei nº 208 de 09/03/1896 autoriza concerto e calçamento de diversas ruas. No §1º - Retificação dos níveis do passeios do Largo do Arouche, entre as ruas Dona Maria Theresa e Sebastião Pereira, Rego Freitas e Amaral Gurgel. No § 3º Calçamento a paralelepípedos da travessa do Paissandu e da rua Barão de Itapetininga, entre o Viaduto do Chá e a rua Conselheiro Crispiniano.

A lei nº 272 de 28 de agosto de 1896 autoriza melhoramentos em diversas ruas. Entre elas na rua do Ipirangacircolo-italiano, na parte compreendida entre a rua São Luiz e Araújo

Na lei nº 397 20 de maio de1899 ficou determinado que passem a denominar-se rua Dr Rodrigo Silva a da rua Tabatinguera e rua Coronel Xavier de Toledo travessa e rua do Paredão.

Já na lei n.º° 412 08 de agosto de1899 ficou autorizado os melhoramentos e embelezamentos da parte baixa do largo do Arouche

A lei n° 413 08 de agosto de1899 autoriza as desapropriações de um terreno ocupado por um jardim à rua Major Diogo,canto da Santo Antônio um terreno e rancho existente na entrada da rua Leite de Moraes em junção com a rua Voluntários da Pátria, um terreno e parte da casa na rua Araújo, esquina da Consolação pertencente a João Antônio de Oliveira Neto.

A lei n° 300 de 1897 autoriza melhoramentos na Pça da República autorizado pelo presidente da câmara Antônio Proost Rodovalho

Na lei n° 385 21 de março de 1899 fica autorizado ao prefeito a mandar construir passeios na saída do Viaduto do Chá ao lado da rua Barão de Itapetininga;

A Lei n° 413 08 de agosto de 1899 autoriza o prefeito a desapropriar um terreno e parte da casa na rua Araújo , esquina da rua da Consolação

Lei n° 443 de 18 de dezembro de1899 autoriza o prefeito a melhorar a rua Xavier de Toledo.

A lei nº 451 de 13 de fevereiro de1900 autoriza o prefeito a mandar calçar a rua São Luiz

A lei nº 458 17/04/1900 autoriza o prefeito a desapropriar em terreno á rua do Ipiranga, esquina da rua Rego Freitas, para a regularização das mesmas ruas.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nova Luz entre Zumbis e Demolição

O administrador público derruba constrói, e vai cavando e levantando a seu bel prazer sem consultar quem vive no lugar.

Agora é a vez da “Nova Luz”, que deveria chamar-se “ Nova Demolição”. Sim porque, a prefeitura para Nova Luz crack_tltomar uma atitude contra a degradação humana, zumbis do crack, que é o maior problema do bairro, está demolindo, demolindo e demolindo prédios que poderiam ser aproveitados. É a continuidade da filosofia bota abaixo e faz de novo. Sem pensar nos custos múltiplos que isso tem. E pensar que São Paulo no começo do Século XX já fazia este tipo de mudança.

“Seguiu pela esquerda (Como é estranho! Não entendo mais nada. Ah! sobrou uma face da Rua Bráulio Gomes, a que tem a capelinha na esquina da Rua Xavier de Toledo. Mas, será possível? A capelinha também desapareceu!”) 

Quis orientar-se ao entrar na rua da Consolação (“Está ali a mureta da ladeira que vai para o Piques”).

Mas a Biblioteca Municipal Mário de Andrade atrapalho-o ( “terá sumido o arvoredo do Jardim do Nicolau Sousa Queirós? Não. Ainda estão as palmeiras perto daquela estátua. Camões?”).

Deus mais uns passos e reconheceu, na esquina, outras árvores (“Estas, seguramente, são do jardim do Nicolau Sousa Queirós”)

Olhou para o lado oposto (“Era a casa de José Carlos de Macedo Soares, na esquina da Rua Major Quedinho.Na outra esquina o Colégio Sagrado Coração de Jesus, para meninas. Mas sumiu a casa de José Carlos, sumiu o colégio, e sumiu a rua Major Quedinho! Ah! não! ao menos a rua Major Quedinho está ali adiante”)”.(1)

Estas são observações de um morador de São Paulo a quase 90 anos. Assim estamos nós em relação ao trecho proposto como Projeto Nova Luz. 

Será que vamos encontrar alguma Avenida Casper Líbero quanto terminar as obras do metrô linha Amarela? Por hora o que existe são buracos e tapumes.

Entre a Brigadeiro Tobias e Av Prestes Maia, mais crateras que em algum momento poderá ressurgir em uma nova estação de Metrô.

Na rua Mauá entre a rua dos Protestantes e General Couto de Magalhães mais uma demolição grandiosa. No aviso a indicação:

“Estamos construindo a futura sub-prefeitura da Luz”. Mas o pior, o pior mesmo está em Frente a Estação de Trens Júlio Prestes.

Lá os zumbis da “cracolândia” conseguiram um espaço murado para se ferir e se matar pela droga sem que ninguém veja.

A velha rodoviária está demolida e fica entre os muros dos prédios seus vizinhos. Um espaço aberto para o unovaluz1so da droga como a saída do “Minhocão” em frente a Rua Barão da Joatinga em Santa Cecília.

Encaminhamento das questões sociais não dá voto. Não fica para posteridade e não facilita o desvio de verba. Então, é melhor demolir e reconstruir do que buscar saída para as fábricas de zumbis do crack que aumentam a cada dia.

(1) Americano, Jorge – São Paulo nesse tempo 1915-1935

terça-feira, 7 de setembro de 2010

São João a Primeira Avenida

O desenvolvimento de São Paulo ocorreu no final do séc. XIX, com o crescimento do capital gerado pela economia cafeeira, somado a presença de imigrantes e migrantes como força de trabalho. O excedente do capital da lavoura cafeeira pagava a industrialização e a nascente estrutura de transporte que se apoiava nas ferrovias. (1)

A industrialização trouxe o aumento populacional e de atividades, tornando as relações econômicas e sociais mais complexas e mais exigentes.

Era urgente que a cidade deixasse de ser uma pequena cidade para se tornar uma metrópole. Porém, o incremento de atividades no espaço urbano implicou em grandes problemas, como a falta de habitações, saneamento, energia, estruturas de circulação e equipamentos de transporte.(2)

O Centro passou por uma remodelação no início dos 1900, período da implantação dos bondes elétricos pela Light and. Power Limited.

Para desenvolver os jovens loteamentos a oeste, não bastava isentar o loteador de pagar impostos, como o caso da lei 391 de 15 de abril de 1899 que “torna extensiva a isenção de impostos as ruas abertas pela Baronesa da Limeira, situadas no prolongamento da atual Rua São João.” Para que o progresso formasse bairro era preciso fazer com que os bondes chegassem até lá.

Nos primeiros tempos os caminhos foram sendo construídos de forma espontânea, sem planejamento, ligando a região central aos arredores. Assim, para dar as ruas o rumo dos novos tempos era preciso teA Linha do Bonde em 1915Fig 128r avenidas com trinta metros de largura e ruas com no mínimo 15 metros e de preferência que todas fossem retas formando um tabuleiro de xadrez como as cidades da Europa.

O então prefeito Antônio Prado começa desapropriando através da lei nº 515 10/05/1901 “declara de utilidade publica, para fim de serem desapropriados, as casas e terrenos necessários ao prolongamento da rua entre as do Senador Queiroz e São João.” Foi dada a largada para um novo tempo.

Má idéia? Boa idéia? Discutiu-se se falou. O São João ferveu. O veneno das águas do Acú ressurgiu, espalhou-e pelo ar.

A questão da abertura da Avenida envenenou todas as almas, todos os corações. Dos que eram pró abertura da avenida e dos que eram contra a ganância especulativa e as negociatas. Desapropriações escandalosas . Dinheiro a rôdo. Cada metro de terreno, os olhos da cara. Dos contra, pela insopitável indignação à vista de tanta exploração.

Tudo envenenado pelo valor das desapropriações.

Na Câmara o brilhante vereador Alcântara Machado, tempestuoso, violento, incisivo, falou sobre a extorsão dos cofres públicos contra a desenfreada especulação das célebres desapropriações.

Mas como tudo que é humano, o vendaval passou. A Avenida São João, sugiu embora tivesse custado milhares de contos de reis. (5)

A abertura da avenida foi um grande atrativo para o desenvolvimento urbano do outro lado do Vale do Anhangabaú. Afinal era a possibilidade de fazer as ruas em linhas retas.

Em 1911 começa o governo de Raymundo Duprat que juntou toda capacidade financeira e de negociação da sua administração para “rasgar” a Avenida São João entre a Praça Antônio Prado e a rua Lopes de Oliveira em Santa Cecília. Não foi uma obra para uma administração. Todos os imóveis do lado par da então rua tiveram de abrir espaço para nascente Avenida São João.

Pessoas importantes como Maria Rodovalho Cantinho, filha do presidente da Câmara Antônio Prost Rodovalho, teve de vender mil metros quadrados a administração municipal. Depois foi a vez de Dr. Plinio da Silva Prado e Joaquim Mendonça Filho também venderem os seus metros para que o futuro se fizesse verdade.

O alargamento teria como benefício adicional a interligação entre vários bairros que estavam nascendo como Bela Vista, Santa Cecília, Bela Cintra e Água Branca.

Através da lei nº 1596 de 27de setembro de 1912 é que passa a fazer parte das desapropriações uma “planta do alargamento da rua São João desde a Pça Antônio Prado até a rua Lopes de Oliveira” (Santa Cecília).

Outra situação interessante de ser observada que é que as primeiras desapropriações são pagas por unidade. Porém, um ou outro proprietário, mais esperto, cobra sua desapropriação por metro quadrado. É o caso da lei nº 1615 08 de novembro de 1912 que “aprova o acordo feito pela prefeitura sobre o prédio nº 108 da rua: São João. Área de 927m2 (550mil reis o metro quadrado) DR. Francisco de Pennaforte Mendes de Almeida, onde 259m2 serão efetivamenteAv São João 1916Fig 129 usados para o alargamento da Rua São João”. Os restantes 660 metros quadrados, o mais caro em toda a obra, seria vendido depois a outra pessoa por valor muito menor.

Em 1913 o prefeito é autorizado a negociar com letras da Câmara e o faz através da lei nº 1644 de 07de fevereiro de 1913 que “autoriza o Prefeito a adquirir o prédio nº 282 da rua São João”. E para esta aquisição o prefeito poderia usar “letras da Câmara com juros de 6% amortizáveis no prazo de 50 anos, resgatáveis antes, se convier aos interesses da municipalidade”. Já o prédio nº 192 a lei n° 1651 de 03 março de 1913 “autorizou o Prefeito a adquirir o prédio com pagamento feito em letras da Câmara com juros de 7% a.a.” Até esta data parecia capricho do administrador municipal as seguidas desapropriações na rua São João. Somente em 1913 é que o prefeito esclarece através da lei nº 1679 de 16 abril de 1913 que “ficam declarados de utilidades públicas, a fim de serem desapropriados, os prédios e terrenos necessários para a formação da Av: São João”.

Neste anos “inicia-se o alargamento da Avenida São João, pela demolição na praça Antônio Prado, da Confeitaria Castelões e da Chapelaria Alberto. Encontra o Mercadinho e derruba-o, e, ao sair do Largo do Paissandu, deixa de pé, por longo tempo, o primeiro prédio do lado par. Em 1933 atingiu a praça Marechal Deodoro, aberta nesse tempo, e seguiu até a rua Lopes de Oliveira” (4).

“Era os velhos prédios caindo por terra, demolidos pela picareta civilizadora”. E no lugar delas nasciam grandes espaços que passavam a fazer parte do que vinte anos depois viria a ser as grandes avenidas de São Paulo.(3)

Bibliografia

(1)Bomfim, Valéria Cusinato – Tese Espaços Edificados e Vazios na Área Central da Cidade de São Paulo e a Dinâmica Urbana - São Paulo -2004

(2) Brito, Monica Silveira- Tese Modernização e Tradição: Urbanização, propriedade da terra e crédito Hipotecário em São Paulo, na segunda metade do século XIX

(3) Revista Histórica nº 11 junho/julho e agosto de 2003.

(4) Americano , Jorge – São Paulo Naquele tempo 1915 –1935

(5)) Moura, Paulo Cursino- São Paulo de Outrora – Evocações da Metropole

O Mercadinho da Rua São João

As feiras livres só surgiram em São Paulo com a primeira guerra mundial. Existiam, no começo do século XX, o “Mercadinho” e o “Mercado Grande”.

Quem saísse da Praça Antônio Prado descendo pela ladeira de São João, no lugar hoje fronteiriço ao Correio, a Rua de São João, com 10m de largura, tinha do lado esquerdo o Teatro Politeama, paredes e telhado de folhas de zinco, e do lado direito o “Mercadinho de São João”, paredes e telhado de folhas de zinco.

O mercadinho era um quadrado, de 50metros por 50 metros, uma entrada central em cada face.Bondes na Av Sao Joao

Havia frutas, cereais, legumes, verduras, lingüiças frangos, toda a pequena produção das chácaras dos arredores da cidade, e um setor de peixe, vindo de Santos. Nada de artigos que não fossem comestíveis, a não ser as cestinhas e peneiras tecidas em taquara e os potes e moringas de barro. Só comestíveis bacalhau seco, mas não produtos enlatados. (1)

No final do século XIX mais precisamente em 18 de junho de 1897 é sancionada pela câmara a lei que autoriza “a construção de um Mercado no lugar onde está situado o mercado da rua São João. As obras ora autorizadas, a cuja execução se obriga o concessionário, constam das seguintes; a) Demolição de todas as casas da travessa do Seminário Indispensáveis a formação da grande praça onde será construído o mercado; b) Nivelamento das ruas Formosa, Seminário e São João pela rua que esta última tem, sobre a cobertura do rio Anhangabaú”. No mesmo ano a Lei nº 305 “Concede permissão para a construção de um lugar onde esta situado o Mercado da rua São João”. Dois anos depois o Ato n° 23 21/03/1899 aprova, as plantas e os desenhos das obras de construção de um novo mercado, onde existe o da rua São João, contratados com o engenheiro Jesuíno de Mattos”.

O crescimento vertiginoso de São Paulo a partir da década de 1870 foi fruto do grande crescimento da economia cafeeira da chegada dos imigrantes. De 1886 a 1900, a população cresceu mais de cinco vezes.

A região central vivia um desenvolvimento acelerado principalmente nas ruas São João, Formosa, Anhangabaú, Ponte do Lorena, sobre o Anhangabaú, que ligava a Ladeira do Piques com a Ladeira da Memória, atual Praça das Bandeiras. Sanear as várzeas do ribeirão do Anhangabaú e ampliar a rua São João exigia que o Mercadinho de São João fosse demolido e substituído e foi o que aconteceu através da lei nº 1050 de 02 de outubro de 1907.

Dez anos depois a lei nº 2052 10 de fevereiro de 1917 “autoriza a montagem de todo material do antigo “Mercadinho de São João”, no local onde funciona o mercado rural de Pinheiros, no distrito do Butantan”.

Assim, o Mercadinho da Rua São João não só se mudou, mas também morreu, pois hoje, antigo mercado de Pinheiros deu lugar as obras do metrô Linha a Amarela, e pelo menos no tradicional largo da Babata o Mercado de Pinheiros morreu.

Bibliografia

Americano, Jorge – São Paulo naquele tempo 1895 -1915

Revista Histórica nº 11 junho/julho/agosto 2003

domingo, 29 de agosto de 2010

Meio Metro de Homem Bacalhau

Personagens das ruas de São Paulo do final do século XIX

Os meninos o chamam de “Meio Metro”, seu nome de batismo é Rufino. Era um pretinho de um metro e quarenta de altura, com uns cinqüenta anos de idade. Com todo este tamanho não se pode dizer que é um anão, mas também não é um homem alto. Assim, o fato de ter um metro e meio é tudo que vale na sua vida social.

“Meio Metro”, seria para si mesmo antes um homem alto do que baixo. HomemBacalhau

Um dia quando ia pela rua a molecada o gritou “Meio Metro” e ele estava ofendido. Quando a molecada se aproximou, Meio Metro achou mais conveniente embravecer muito, senão se afastariam, e lhe faltaria auditório para demonstrar sua superioridade.

E não perdeu a oportunidade e foi logo dizendo:

- Vocês são uns meninos malcriados. Vocês conhecem Padre Cícero? Em dia de procissão na Sé, está tudo arrumado desde cedo dentro da igreja.

Gente começa a perguntar para Padre Chico: - Padre Chico, a procissão não sai? – Padre Chico responde: - Espera um pouco. Gente pergunta outra vez: - A procissão não sai? – Padre Chico responde: - Onde está Rufino? Rufino não chegou? Então a procissão não sai. Rufino é que abre a porta da frente da igreja. Enquanto Rufino não Chega a procissão não sai.

Quer pessoa maior que isso?

O homem teria sessenta anos. Quando distava meio quarteirão, já se via a barba longa, descendo até a cintura.

Mais perto, via-se que não acabava ali. Estava enrolada no braço esquerdo.

O homem parava, e quando perguntavam pelo comprimento da barba, ele a soltava até os pés, muito fina e de poucos fios na extremidade.

Abaixava o rosto e a barba tocava o chão.

Então tirava o chapéu e estendia a barba para o grupo que se formava ao seu redor. Os curiosos davam-lhe alguns vinténs. O homem dizia “Deus lhe pague”, punha o chapéu na cabeça, enrolava a barba no braço esquerdo e seguia.

Padre Bacalhau parece que enlouqueceu. Não podia dizer missa. Magro, que não podia ser mais magro. Pequeno recurvado. Cruzava as mãos sobre as costas, e sobre a mísera roupa, uma capa, azul por fora, vermelha por dentro, batendo na canelas.Ia silencioso, magro e recurvado, com as mãos nas costas. O meninos gritavam – Padre Bacalhau – Padre Bacalhau!

Ele não respondia. Caminhava, caminhava. Não sabemos onde morava, nem onde comia. Mas quando ele passava a molecada gritava. Padre Bacalhau, Padre Bacalhau e ele não respondia e continuava caminhando com as mãos nas costas.(1)

(1) Americano, Jorge – São Paulo naquele tempo 1895-1915.

domingo, 22 de agosto de 2010

O Sonho da Galeria de Cristal

Gráfico de origem francesa, Victor André Jules Martin, aprendeu as artes gráficas na Escola de Belas-JUles MartinArtes de Marselhesa. Veio para o Brasil aos 34 anos. Trazia uma carta de apresentação para o Visconde de Ouro Preto. Pouco demorou na Corte, Rio de Janeiro. Veio para São Paulo, onde por dois anos residiu, com a esposa e dois filhos, em Campo Largo de Sorocaba, na  fazenda de um irmão, onde instalou a primeira máquina de algodão. Depois se mudou para a capital em 1870. A princípio, a sua gráfica não tinha nome. Porém, em 1875 recebeu a visita de D. Pedro II, e aí Jules resolveu dar-lhe o nome de "Imperial Litografia".

Mantinha uma litografia com gravuras que impressionava a todos, a “Imperial Lithografia a Vapor”, foi instalada na Rua Boa Vista, depois foi transferida para a Rua São Bento. Nas vitrines de seu negócio apresentava com originalidade impressionante as suas idéias. Havia no número 63 da Rua São Bento, parede e meia totalmente decorada com suas gravuras. Jules Martin será conhecido como autor e editor de estampas sobre a cidade.

Costumava, também, apoiar fotógrafos com a venda de fotografias, como ocorreu em 1876 ao expor fotografias tiradas por Walter Bradley. Outro fotografo ajudado telo gráfico foi Renouleau que se tornou seu genro. Apesar de todo este envolvimento com a imagem seu trabalho memorável foi a idéia de unir um lado e outro da cidade através de um viaduto metálico, o Viaduto do Chá. A maior construção metálica que a cidade já vira. Ligava o antigo centro da cidade com uma área nova em expansão para oeste, vencendo o vale do Anhangabaú. Até a implantação do viaduto o vale era uma depressão profunda a marcava a paisagem com plantações de chá, horta na Chácara do Chá e vegetação esparsa.

Apesar da vitória e da lucratividade gerada através da conclusão do Viaduto do Chá sua grande frustração foi sem dúvida não ter conseguido erguer as "Galerias de Cristal", importando uma forma de construção comercial que estava no auge na Europa.

Não podemos dizer que ele não lutou para realizar seu sonho. Em 12 de setembro de 1896 através da lei nº 275 consegue que a prefeitura de São Paulo o autorize a construir as “Galerias de Cristal”. Para tanto a Lei lhe facultava: Art.... 1º - Fica declarada de utilidade pública a desapropriação da área necessária á construção de duas galerias de 8m de largura, abetas no perímetro central da cidade, conforme a planta apresentada por Jules Martin, partindo uma galeria do Largo do Rosário com direção a uma nova rua projetada entre as ruas do Comércio e 15 de novembro e cruzamento outra galeria da Rua de São Bento á rua Quinze de Novembro, abertas ao trânsito durante todo dia e noite. Art...º 2- Fica concedido a Jules Martin, ou a quem suas vezes fizer autorização para proceder à construção das mencionadas galerias com isenção de impostos cuja cobrança está afeta á Câmara Municipal, durante cinco anos, a começar da data da conclusão das galerias.....

Parágrafo Único – Toda a despesa com as desapropriações correrão por conta de Jules Martin ou quem suas correrão por conta de Jules Martin ou quem suas vezes fizer.

Apresentou desenhos, de vista interior projetando a passagem com 14m de altura e cobertura abaulada em metal e vidro.

Foi desta mesma forma só que com concessão feita pelo estado que Jules Martin conseguiu colocar o sonho do viaduto de ferro que unia um lado e outro da cidade em pé. No entanto as “Galerias de Cristal”, não teriam o mesmo sucesso. Em 21 de julho de 1899, Jules Martin consegue autorização para construção de suas “Galerias de Cristal” por seção. Quem sabe com esta divisão a obra se tornaria mais barata, e por isso teria mais probabilidade de reunir capitais para se tornar realidade. A Resolução do prefeito municipal de número 87 concede a Jules Martin, prazo para apresentar plantas definitivas das Galerias de Crystal de dois anos para apresentar as plantas definitivas. O ato de número 83 de 19 de maio de 1900: Declara haver a Câmara concedido a prorrogação de dois anos requerida por Jules Martin, dos prazos constantes do contrato de 03 de novembro de 1899 para a construção das Galerias de Crystal. A lei de número 631 de 02 de abril de 1903: Prorroga até o fim do ano de 1904 o prazo concedido a Jules Martin para a construção de uma Galeria de Cristal. O que não aconteceu já que ele veio a falecer neste em 1906

Galeria de Cristal

Martin era um homem empreendedor e colocou sua arte para fazer o primeiro mapa da Província de São Paulo. Foi ele quem instalou, nesta capital, o primeiro motor a gás. Foi introdutor de muitas máquinas novas para incremento da indústria. Foi quem lançou a zincogravura. Foi o autor do projeto da estátua de José de Bonifácio “o Moço”, que está no Largo de São Francisco. Foi ainda autor de um projeto de estrada de ferro para São Sebastião, de que obteve privilégio, mas que não realizou por falta de capital. Foi vencedor de um projeto para a construção de um Teatro Municipal, ou Estadual, na Praça da República. Foi autor de um projeto para a construção da Estação da Luz, que, em grande parte, foi aproveitado. Enfim, o homem demonstrava sua inventividade.
Jules Martin faleceu em 18 de setembro de 1906 aos 74 anos, levando a satisfação de ter executado o seu sonho de unir um lado e outro da cidade e a frustração de não ter tido o mesmo sucesso com suas “Galerias de Crystal”.

Bibliografia:

http://www.abril.com.br/especial450/materias/viaduto

Boletim do Arquivo Municipal de São Paulo número 22

Leis e Actos do Município de São Paulo – 1896 a 1904

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Viaduto Santa Ifigênia

A história do Viaduto Santa Ifigênia começa quando é publicada a  lei municipal nº 503 de 15 de janeiro de 1900  onde “Freid & Ekman ganham da prefeitura a concessão, por oitenta anos, para construção, uso e gozo de um viaduto ligando o Largo de São Bento ao de Santa Ifigênia”.  A única condição imposta pela lei era que “o viaduto estivesse sempre livre e gratuito para o trânsito de pedestres”. Afinal, a experiência dos três vinténs cobrados dos pedestres no Viaduto do Chá havia deixado marcas desagradáveis na população. Este seria o segundo viaduto construído sob o vale do Anhangabaú.

A construção do viaduto não começa a ser feita pelos donos da concessão devido ao alto custo das desapropriações e as obras de engenharia para a contenção da encosta do lado do Seminário de São Bento. Todos os capitalistas que apostaram na construção do Viaduto do Chá, não quiseram arriscar seu dinheiro na construção de um outro viaduto, iniciativa privada já havia financiado a construção do Viaduto do Chá,  e antes do termino da construção serem desapropriados pela prefeitura. Assim, só restou a prefeitura arcar com o ônus das desapropriações e custo da obra e estrutura. Por isso, a lei municipal de 1.262 de 19 de novembro de 1909 autoriza ao prefeito municipal, Antônio da Silva Prado, “a despender a quantia de quinhentos contos de reis com a construção do viaduto Santa Ifigênia”.

O Prefeito Antônio da Silva Prado, após dez anos consecutivos de mandato é  vencido pelo prefeito eleito Raymundo Duprat. E este segundo prefeito tem a autorização através da lei municipal nº 1375 de o7 de fevereiro de 1911 de “desapropriar o terreno de propriedade de Carlos Schorcht, necessário a passagem do Viaduto de Santa Ifigênia”. Na segunda desapropriação é que se vê porque esta obra não andou no tempo de prefeito Antônio da Silva Prado, afinal a desapropriação autorizada pela lei nº 1382 de 17 de fevereiro de 1911 selava o “acordo”, certamente muito bom para o proprietário, que era uma das maiores fortunas de São Paulo na época, Antônio Alvares leite Penteado, “para aquisição de terrenos medindo 402metros quadrados, sendo 116 metros quadrados para a passagem do Viaduto Santa Ifigênia”. Outro “acordo”, feito foi com João Pinto Villela, “para indenizá-lo, pelas servidões a que fica sujeito o prédio á rua Anhangabaú, nº 37, para a passagem do Viaduto Santa Ifigênia”, lei nº 1468 de 06 de novembro de 1911.

Os custos da obra continuam com a lei 1471 de 07 de novembro de 1911 que “aprova o acordo feito pela prefeitura, para aquisição de um terreno de 506 metros quadrados sito no Largo de São Bento, terreno necessário a construção do Viaduto Santa Ifigênia e obras complementares”. Apesar do custo das desapropriações, quando somados, não serem baixo o custo unitário maior foi o da lei nº 1499 de 06 de fevereiro de 1912 que autorizava o prefeito a gastar vinte e sete contos de reis com a construção de um muro de arrimo no terreno do Convento de São Bento, ao lado da entrada do Viaduto Santa Ifigênia no largo de São Bento e embelezamento da área contigua a embocadura do viaduto no Largo de São Bento com aproveitamento de subterrâneos”.Viaduto de Santa Iphigenia 1913

O Viaduto de Santa Ifigênia foi inaugurado pelo prefeito Raymundo Duprat em 26 de setembro de 1913. Sua estrutura de ferro foi fabricada na Bélgica e trazida ao Brasil para ligar o Largo de São Bento ao de Santa Ifigênia.

Em maio de 1922 a Lei nº 2.445 autoriza a prefeitura a despender 427 contos de reis na execução de diversas obras no Viaduto Santa Efigênia. Estas obras eram: alargamento do leito carroçável, afastamento dos passeios laterais, reforma do calçamento, limpeza e pintura da estrutura de metal do viaduto.