domingo, 15 de janeiro de 2012

Cortiços e Estalagens do Distrito de Santa Ifigênia

O esquadrinhamento do distrito foi feito seguindo, em primeiro lugar, as ruas longitudinais à antiga bacia palustre: na rua dos Gusmões, 15 cortiços estavam localizados no trecho de maior depressão; na General Osório 11 cortiços estavam no trecho mais baixo da rua; na Duque de Caxias, 2 cortiços encontravam-se no limite da bacia  palustre, a oeste, na rua Vitória, 4 cortiços situavam-se no trecho de 1/3 da extensão da rua que ficava na bacia: palustre; na rua Timbiras, 3 cortiços situavam-se fora da bacia.
Nas ruas transversais à antiga bacia, a distribuição dos cortiços seguia a mesma orientação. Ou seja , nas ruas mais úmidas, por estarem dentro da bacia localizava-se o maior número de cortiços. Este é o caso da rua Santa Ifigênia, com 16 cortiços e mais da metade de sua extensão dentro da bacia. As outras ruas transversais contam com um número menor de cortiços, pois possuem menor extensão na bacia: Andrada, e; Triunfo, 2; Bom Retiro, 4; Protestantes, 1; Guaianases, 2 (esta situa-se já fora da bacia e em terreno mais elevado); Conselheiro Nébias, 1 (também fora da bacia)
A zona examinada pela Comissão é maior do que a área ocupada pela primitiva lagoa aterrada. Do total dos 65 cortiços, estalagens, hotéis ou casas de dormidas contabilizados, há 43 situados na área da depressão, portanto, mais de 2/3 dos cortiços examinados.Esses 43 contêm 281 cubículos ou casinhas com uma população de 965 indivíduos. Uma quarta desta população foi considerada, segundo indicação dos moradores, como lotação em excesso. Assim, pelo que Relatório, a Comissão assumiu que o excedente de moradores totalizava 231 indivíduos, número indicado pelos próprios moradores.
A Comissão concluiu que esse número de indivíduos em excesso possivelmente estava subestimado, pois seria bem maior caso fosse contabilizado à noite e por uma “polícia noturna” que perceberia a população que vem somente à noite ocupar os cômodos.
No Relatório novamente, há outra referência às casinhas de Carlos Girardi, o maior proprietário de habitações alugadas para operários. Todas as casinhas eram densamente povoadas e situadas nos pontos mais baixos e próximos da antiga bacia palustre.
Bibliografia:
Os Cortiços de Santa Ifigênia (1893)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Conhecendo as Habitações de Santa Ifigênia 1893

Casebres de 1893

Aqui falaremos nos tipos de estalagens, cortiços ou habitações operárias de Santa Ifigênia. As habitações destinadas às classes operárias são numerosas. Contabilizam 60 cortiços de todos os tamanhos e feitios, com uma população de 1.320 indivíduos de todas as nacionalidades e condições. A característica do cortiço, o tipo de habitação dominante, é definida da seguinte maneira: “O cortiço ocupa comumente uma área no interior do quarteirão, quase sempre um quintal de um prédio onde há estabelecida uma venda ou tasca qualquer. Um portão lateral dá entrada por estreito e comprido corredor para um páteo com 3 e 4 metros de largo nos casos mais favorecidos. Para este páteo, ou área livre se abrem as portas e janelas de pequenas casas enfileiradas com o mesmo aspecto a mesma construção, as mesmas divisões internas e a mesma capacidade. 
O tamanho da unidade habitacional, cubículo ou casinha, mais freqüentemente encontrado dentro de um cortiço foi de 45 a 63 metros cúbicos de capacidade, com as dimensões de 3 metros de largura, 5 a 6 metros de comprimento e 3 a 3,5 metros de largura. Com essas dimensões, o cubículo abrigava no máximo quatro pessoas, ou seja, cada indivíduo teria de 11,25 a 15,75 metros cúbicos. Nos cômodos de dormir e na sala ventilação natural, janela e porta. No cômodo dos fundos, sem assoalho ou forro, era instalado um fogão ordinário e uma chaminé que raramente funcionava, pois era mal construída. Disso decorre que o interior das casinhas  era enegracido, sem asseio, com o teto coberto por sujeiras e moscas e as paredes cobertas por pregos, em que eram pendurados utensílios domésticos, roupas e outros objetos. O único cômodo de dormir, centro da construção, não tinha luz e nem ventilação. A ocupação da alcova, normalmente à noite, excedia o número máximo, de quatro pessoas.
Um fato constatado pela Comissão de 1893 era de que o assoalho nunca era limpo, à exceção “daquelas habitações ocupadas por famílias alemães. A lama e a umidade do solo traziam um aspecto insalubre e feio àquelas habitações, pois o soalho “não é ventilado e se assenta diretamente no solo”.
Na área livre, “pateo” ou quintal, ficava normalmente uma latrina”mal instalada e ordinária”, uma tornaria, um ralo para o esgoto e algumas vezes um tanque para lavagem. Do levantamento feito, a Comissão constatou que 50% das áreas livres não eram acimentadas ou calçadas; não havia sarjetas para a drenagem superficial da água, que ficava empoçada, e todos os poços estavam contaminados portanto deveriam ser entupidos.
Por último a descrição das latrinas: “as bacias de barro vidrado cobertas por um imundo caixão de pinho, apoiado em solo encharcado de urina fétida, completam o tipo dessa dependência bem característica do cortiço”.
Para a Comissão, o asseio é, antes de tudo, a providência mais necessária a ser tomada com relação à habitação de operários.
Uma possibilidade de mudança é apontada pela Comissão ao reconhecer que a criação do Serviço Santário em 1892 e a presença dos “delegados de higiene” pudessem trazer melhorias.
Outro tipo de habitação era uma casinha com frente para a rua pública. Em geral eram pequenas e inadequadas para a população moradora e também, não dispunham de qualquer cuidado quanto à higiene. O soalho assentava-se diretamente no solo o fosso não dispunha de ventilador, e biombos de madeira ou de outro material subdividiam os minúsculos cômodos. Aos fundos, numa área exígua, encontrava-se a latrina ordinária, sem abrigo e sem ladrilhos. Na cozinha as condições higiênicas eram igualmente precárias.

Bibliografia:
Os cortiços de Santa Ifigênia sanitarismo e urbanização (1893) pág 41 a 43

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Moradia da População pobre de Santa Ifigênia em 1893.


Moradia de população pobre 
A população, nos últimos 10 anos triplicara e era preciso que o poder público cuidasse da unidade urbana, a habitação privada, mas daquela onde se acumula a classe pobre, a estalagem onde pulula a população operária, o cortiço como vulgarmente se chamam essas construções acanhadas, insalubres, repulsivas, algumas onde as forças vivas do trabalho se ajuntam em desmedida, fustigada pela dificuldade de viver, nessa quase promiscuidade que a economia lhes impõe, mas que a higiene repele.
A epidemia de febre amarelada foi a razão apontada pela Comissão para que o poder público tomasse a iniciativa, pois ela deixara a seguinte lição: as condições do meio, a topografia e as condições de vida da população foram os motores do seu surgimento e de sua evolução, e a população operária foi a sua maior vítima. Com relação à topografia urbana, o poder público iniciou a realização de obras de saneamento.
Naquele ano de 1893, estava começando a ser realizada a construção e reforma da rede de água e esgoto com a encampação da Cia Cantareira de Esgoto pelo estado de São Paulo. Entretanto, quanto à população, o poder público deveria intervir, impondo um regulamento à “indústria da construção e locação dos prédios” inadequados à moradia. O Relatório não é omisso em relação aos proprietários de estalagens, cortiços, hotéis, casas de dormida e nem em relação aos que constroem e aos que locam prédios “sem atenção às leis da moral e à vida dos seus inquilinos”, e os condena.
No bairro onde a epidemia se alastrou, há três casos fatais registrados. O que o Relatório constata é a presença dominante de cotiços ou estalagens, casas de dormida, prédios transformados em hospedarias, vendas ou tascas com aposentos para alugar nos fundos e hotéis de terceira e quarta ordens transformados em cortiços. Conforme sentenciava a Comissão, os abusos dos proprietários e construtores tenderam a aumentar ao invés de diminuir.
A epidemia de febre amarela circunscreveu-se ao quatrilátero limitado pelas ruas Duque de Caxias, Visconde de Rio Branco, Victoria e Triumpho, e mais o triangulo formado pelo largo do General Ozório. Essa área, segundo a observação do engenheiro Theodoro Sampaio, que mostra seu conhecimento de Geologia, correspondia à antiga bacia palustre, uma primitiva lagoa que fora aterrada. Uma depressão no terreno marcava os quarteirões localizados no interior do quadrilátero, fazendo com que a drenagem fosse imperfeita e, para agravar ainda mal mais a situação, os serviços de esgoto era insuficientes e mal construídos. Assim, os terrenos eram úmidos e durante a época das chuvas, nos verões paulistanos, formavam-se verdadeiras lagoas de águas pluviais, que somente desapareceriam com a persistente insolação. A rede de esgoto recém-instalada de forma incompleta em algumas ruas funcionava precariamente: não permitia o escoamento e, ao mesmo tempo, nas épocas  de chuvas intensas, fazia refluir o material das galerias. Os inúmeros prédios construídos na região ocultavam a depressão da bacia palustre, impediam a drenagem e dificultavam a secagem solar.
Bibliografia:
Os cotiços de Santa Iphigênia: sanitarismo e urbanização (1893) pág 41
Cordeiro, Simone Lucena, organizadora

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Busca de soluções para os cortiços de Santa Hifigênia


Os inspetores não se limitaram a descrever a situação, mas também apresentam propostas de demolição ou de reforma em vista da situação de cada edifício, e propõem duas plantas para “habitações operárias de caracter urbano”, uma delas define inclusive “o mínimo das construções deste gênero toleradas dentro da cidade, e uma planta para “as vila operárias” a serem construídas em “terrenos fora da cidade”.
Estabeleciam, assim, um parâmetro que viria a ser elemento de conflito entre higienistas e engenheiros civis.
O Relatório apresenta ainda outro item de grande importância para a constituição do urbanismo enquanto prática de projetar e intervir na configuração do espaço urbano: o da especialização de áreas da cidade para determinadas ocupações.
Em suma, praticamente os especialistas estabelecem condições mínimas para a construção ou reforma dos cortiços em bairros urbanos e já dispõem a localização para as vilas operárias, “de preferência, nos subúrbios em terrenos escolhidos e saneados”, com fácil acesso aos empregos por meio do transporte ferroviários ou, quando dentro do perímetro da cidade, a serem implantadas em “terrenos ainda desocupados no Bexiga, Bella Cintra, Pacaembu, Pary, Mooca e Cambucy”.
A leitura do relatório de 1893 mostra que os autores detinham o pleno conhecimento das modernas práticas sanitárias difundidas internacionalmente por meio de projetos, soluções exemplares apresentadas em exposições, congressos, escritos teóricos, livros e artigos em revistas especializadas, manuais técnicos e demais publicações. Apoiada na teoria mesológica, de ampla adoção para as intervenções urbanas, a ação governamental amplia a área de sua responsabilidade, antes pontualmente restrita à realocação de cemitérios, hospitais e matadouros para áreas afastadas da parte mais urbanizada da cidade e ao cuidado de avaliar os lugares de implantação em relação à topografia e direção dos ventos. Como forma de assegurar, ainda que precariamente, a entrada de luz e ar nos cômodos, a Prefeitura exige, a partir de 24 de maio de 1893, supervisiona as plantas das casas a serem construídas como condição prévia ao fornecimento do necessário alinhamento no lote. Complementa desse modo leis que, já em 1871, haviam estipulado a exigência do pedido de alinhamento feito à Câmara para as novas construções.
Como parte da reorganização administrativa, a Prefeitura estabeleceu, para efeito de cobrança de impostos, a divisão da cidade em quatro perímetros: primeiro o Triângulo Central e o Centro Novo, estendendo-se até a Pça da República; em continuidade, o segundo perímetro comportava extensa área a leste e a área a oeste formava o terceiro perímetro, restando ao quarto uma área ainda em urbanização e definida a partir do limites das anteriores.

Bibliografia:
Os cortiços de Santa Ifigênia: sanitarismo e urbanização 1893 pág 22.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Cortiços de Santa Ifigênia

Prédio de Cortiço

Em 1893, como resposta as constantes reclamações tanto de particulares, dos políticos exigidos pelo incessante crescimento da cidade o intendente municipal designa uma comissão de especialistas para analisar as condições de higiene da “zona afetada pela febre amarela”. No relatório encaminhado ao Prefeito Cesário Ramalho da Silva os integrantes da Comissão de exame e inspecção das habitações operárias e cortiços no distrito de Santa Ifigênia apresentaram detalhes as más condições sanitárias de determinadas ruas e casa desse bairro. A situação de emergência autorizava-os a adentrar o espaço privado das habitações “em bem da higiene urbana”, pois, como enfatizavam os inspetores, a área construída “ponto vulnerável do sistema de defesa”. E mais reivindicavam em nome da higiene pública o poder e o dever das autoridades governamentais de “em certos casos suprimir garantias” e até “mandar demolir, retocar e reformar” sem obrigação, em certas circustâncias, de indenizar o proprietário.
E as primeiras observações foram: “Ai a depressão do terreno no interior dos quarteirões é uma bacia rodeada pelo aterro das ruas, cujo calçamento fica de ordinário mais alto do que a área dos quintais.
A drenagem superficial é assim imperfeitíssima sem o concurso de um bom serviço de esgoto
A umidade copiosa do terreno, não rato, forma nestes terrenos deprimidos, pequenas lagoas que as águas pluviais alimentam e que só desaparecem pela ação do calor solar.
Em mais de um ponto a drenagem é mesmo impossível por se achar o encanamento do esgoto em nível superior. Em outros sítios a carga adicional de água no tempo de chuva faz refluir da rede de esgoto matérias aí contidas ou retardadas, o que demonstra as condições desfavoráveis em que essa rede funciona”.
Em seus relatórios a comissão coordenada pelo engenheiro Luis Cesar do Amaral Gama e formada por seu colega Theodoro Sampaio e três médicos, utiliza expressões que conjugam noções técnicas e figuras de linguagem. Assim, se suas avaliações iniciam-se afirmando do ponto de vista técnico a necessidade impositiva de “uma plano de saneamento” de “manter em nível elevado a higiene {....} [e] cuidar da unidade urbana a habitação”
Várias são as denominações para designar essas moradias coletivas: ”habitações comuns, estalagens, cortiços, hotéis de 3ª ou 4ª ordem, casas de dormida, prédios transformados em hospedaria, vendas e tascas, quase todas com aposentos nos fundos para aluguel”.
Preocupados com as péssimas condições sanitárias dos cortiços e demais habitações coletivas dessa área bastante populosa e próxima ao “centro velho” da cidade, os inspetores percorreram casa a casa e anotaram minuciosamente em fichas os nomes dos proprietários e de seus respectivos inquilinos.

Bibliografia:
Os cortiços de Santa Ifigênia: sanitarismo e urbanização (1893) pág 21


domingo, 11 de dezembro de 2011

Mudança de Local da Irmandade de N.S. Rosário dos Homens Pretos

Em 1898 surgiram os primeiros indícios de que a igreja iria ser destruída para alargamento da praça e sua subseqüente mudança para o Largo do Paissandu, quando foi inaugurada solenemente aos 15 de abril de 1906, com a benção do cônego João Nepomuceno Manfredo Leite. A irmandade de Nossa Senhora do Rosário, sem a licença do ordinário da Diocese, procurou alienar parte da igreja, ou seja, a sacristia. Por isso foi privada de celebrar ou mandar celebrar qualquer ato religioso pro portaria de 19 de julho de 1898 anulada, aliás, em dezembro pelo cônego Ezechias Galvão da Fontoura. Em 1903 a Câmara Municipal votou a lei nº 670 que declarava “de utilidade publica, para o fim de serem desapropriados, os terrenos e prédios necessários ao aumento do largo do Rosário, pertencentes a Irmandade de Nossa Senhora do Rosario dos Homens Pretos”.  A Irmandade pediu a indenização de 500 contos, mas os entendimentos como prefeito chegaram a bom termo com uma indenização de 250 contos. Alegava a Irmandade que “a igreja de Nossa Senhora do Rosario dos Homens Pretos é um monumento histórico de nossa pátria. Data de 1725 a sua ereção naquele local, conforme documentos que possuímos. Os nossos avôs construíram-na em dias santificados, isto é, quando os seus senhores davam licença. Na então Capitania de São Paulo e Minas caminhavam, em 1725, Domingos de Mello Tavares, ermitão de Nossa Senhora do Rosário na busca dos cruzados precisos para a ereção da igreja.
Logo que angariou 10 mil cruzados, pediu licença as autoridades competentes para regularizar a constituição da Irmandade, o que teve lugar anos depois, por Portaria e mando de D. João, então Principe Regente de Portugal. Vê, pois, Vª Exa, que tem a igreja do Rosario um alto valor estimativo para nós e para o país. Não devemos, por conseguinte, transformá-la em arquitetura que faça desaparecer amanhã o seu valor histórico.
Assim, foi derrubada a tradicional igreja e escolhido o Largo Paissandu para a edificação do templo novo que perpetuasse a tradição do antigo. Os moradores do Largo protestaram, alegando a beleza da praça do Paissandu, que seria sacrificada com a construção. Mas prevaleceu a opinião da Câmara. A pedra fundamental do novo templo foi lançada no dia 24 de julho de 1904 e a igreja inaugurada no dia 15 de abril de 1906.

Bibliografia:
Igrejas de São Paulo - Leonardo Arroyo

domingo, 4 de dezembro de 2011

Festejos de Nossa Senhora do Rosário

Festejos de N. S. do Rosário

Era o festejo dos pretos devotos que não poucas vezes iam a excessos. João Amaro requereu, na sessão de cinco de janeiro de 1833, licença “para fazer danças de pretos no dia seis do corrente no Pateo do Rosário. Ordenando a edilidade que ele se dirigisse ao juiz de paz, “que lhe deferirá na conformidade das leis”. O juiz, realmente, deferirá de forma favorável aos devotos e a Câmara, sempre vigilante do bem comum, mandava o fiscal cobrar “as contas dos pretos de forma do artigo 8° das Posturas.
Por ocasião das solenidades que, antigamente, se efetuavam n igreja de Nossa Senhora do Rosário, em honra desta Santa, se realizavam também, em frente à mesma igreja, festejos populares, postando-se aí um numeroso bando de pretos africanos, que executavam com capricho, a célebre música denominada Tambaque,(espécie de Zé Pereira), cantando e dançando com as suas parceiras, que, adornadas de rodilha de pano branco na cabeça, pulseiras de prata, e de rosário de contas vermelhas e de ouro ao pescoço, pegavam no vestido e faziam requebrados, sendo por isso vitoriados com uma salva de palmas pela numerosa assistência; e, quando terminava a festa da igreja, os mesmos africanos acompanhavam, tocando quantos instrumentos esquisitos haviam, e cantando, o Rei e a Rainha, com a sua corte, composta de grande número de titulares e de damas, que se apresentavam muito bem vestidos. O Rei e a Rainha, logo que chegavam a casa, ofereciam aos titulares, que adotavam os títulos que então possuíam os antigos estadistas do tempo do império, e as damas, um suculento jantar, durante o qual trocavam-se amistosos brindes entre os convivas, mandando as majestades distribuir bebidas aos tocadores do mesmo Tambaque, e que ficavam na rua esperando a saída dos mesmos personagens, os quais, no meio de ensurdecedor barulho, voltavam para a igreja, a fim de tomarem parte na solene procissão de Nossa Senhora do Rosário. Os filhos menores de idade dos pretos africanos, acompanhados de suas mães, também assistiam as mesmas festas, apresentando-se bem vestidos, com um gorro de lã, feito de crochet, na cabeça, e trazendo, como adorno, ao pescoço um rosário de contas vermelhas e de ouro, com grande número de bugigangas, tais como dentes de onça, figas de guiné e de ouro, olho de cabra, pacova, etc..sendo que tudo isso era para livrar os pequenos filhos dos mesmos pretos africanos de algum mau olhado ou de outra  qualquer feitiçaria.
Mas nem tudo eram festas. Havia também os cerimoniais fúnebres, tocados de reminiscências africanas e tolerados pela igreja até certo ponto. Esse certo ponto foi a vizinhança que se desenvolvia em torno da igreja. São Paulo crescia e os cidadãos que vinham morar para o largo do Rosário começaram a se inquietar com a cantoria dos negros pela noite a dentro quando morria um membro da irmandade.

Bibliografia:
Igrejas de São Paulo , Leonardo Arroyo, págs 208 e 209