domingo, 31 de julho de 2011

Joias do Beco do Mata Fome

São Paulo Histórico –Vol I - Nuto Sant’Anna, pág 93

Contam os antigos da Paulicéia que existia um prédio baixo, de paredes irregulares, de taipa de pilão e beirais que pareciam a aba de um chapéu desabado, no antigo caminho de Pinheiros, fronteiriço á esquina do beco do Mata Fome. Era onde se abastecia de farinha e feijão o povo. Escravos fugidos, escondidos nos campos do Bexiga, ou no Pirajuçara, Mboy, atual Embú das Artes, ou Carapicuíba, ali paravam furtivamente para um gole de cachaça.Largo da Memória 1860

Pelas ruas exíguas, tortuosas, os estudantes passavam enrolados nas suas capas; á noite erravam em serenatas, e um deles, Álvares de Azevedo, a cavalo pelos bairros longes, ou a pé, quieto e cabisbaixo, o olhar vago, a barbicha rala, pálido, caminhava ao acaso, empurrando o seu vulto meditativo, sem que a turba ignara soubesse que ia conduzindo nos ombros pedras para o edifício da beleza...

Nesses tempos, a cidade era romântica, tristonha, religiosa.

Os negros andavam de curote à cabeça em torno do chafariz ou pelas fontes. Vinham dos quintais cantorias de mucamas gordas. O rumor dos pilões socando, tinham ressonância de urucungos. E pelos pedregulhos das ruas esburacadas trotavam, sob as cangalhas de couro grosso, tropas lentas e serviçais...

O dono desta taberna do Mata Fome, um dia chamara um pedreiro para concertar umas goteiras no telhado. O mestre de obras veio, poz a escada, trepou. Lá em cima, quando embarafustava por entre as ripas, deu como pé em um corpo estranho, que rolavam no tosco forro de velhas tabuas empoeiradas. Ao rumor, voltou-se. E viu, deslumbrado, uma porção de jóias, pedras preciosas, moedas de ouro, prata, tudo chamejando.

O pedreiro, um português de meia idade, que viera ao Brasil em busca da milagrosa Árvore das Patacas, ficou estático como Ali-Babá ante os tesouros da Gruta dos Quarenta Ladrões.

Agachou-se, sondou, verificou. O sonho era realidade. Com avidez, encheu os bolsos o mais que pode com aquelas preciosidades. Desceu logo depois. Sem mesmo ter dado começou aos serviços de retalhamento.

Ao dono da venda disse vagamente que ia buscar umas ferramentas.

E saiu voando, Sem olhar para traz. Tinha asas nos pés.

Desceu pela Rua do Paredão, enveredara pela dos Piques.

sábado, 23 de julho de 2011

Rua Vitória

São Paulo de Outrora, Evocações da Metrópole – Moura, Paulo Cursino de Moura

Aberta em 1810, esta rua recebeu a primitiva denominação de Rua de Santo Elesbão, numa referência à Irmandade religiosa de mesmo nome que tinha sua sede na Igreja de Santa Ifigênia. No dia 28/11/1865, por proposta do vereador Malaquias Rogério de Salles Guerra, este nome foi alterado para Rua Vitória, numa referência à vitória alcançada pelas tropas brasileiras na célebre Batalha do Riachuelo, travada a 11/06/1865, durante a Guerra do Paraguai.Rua Vitória

São Paulo, porque o Brasil ganhou a guerra do Paraguai, guerra lendária que ultrapassou o limite de um episódio guerreiro para constituí-se em epopéia, resolveu enfatizar nas ruas dos seus bairros, residenciais, abertos em 1870, a Aurora, a Vitória, e o Triunfo. Daí, as ruas que conhecemos, Rua Aurora, Rua Vitória e Rua do Triunfo.

domingo, 17 de julho de 2011

Rua Sete de Abril

Todos os Centros da Paulicéia - Ponciano, Levino

 

A Rua Sete de abril nasceu em 1872 e no início era um simples caminho que ia do Largo dos Curros (praça da República) ao largo da memória., no largo muito mais amplo que o Anhangabaú. Seu primeiro nome era Rua da Ponte Nova do Lorena. Com a abertura da Faculdade de Direito, a rua mudou de nome e ganhou vida nova. Era a famosa Rua da Palha, onde os estudantes criaram suas repúblicas.Rua Sete de Abril

Alguns anos depois, a Rua da Palha abrigou uma nova clientela trazida pela atividade de belas jovens barulhentas, cuja profissão era fazer felizes os garotos estudantes. Eram as prostitutas “polacas” chegando para a alegria dos futuros advogados.

O nome sete de abril veio da abdicação de Dom Pedro I, em 1831. O filho do imperador, Dom Pedro II, tinha seis anos na época e ficou sob a tutela de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da nossa independência.

O mundo dos primeiros anos de São Paulo girava em torno do centro; tanto, que o maior museu da América Latina se fixou na Rua Sete de abril de 1947 a 1968. Aí, sim, o centro ficou mais central. Funcionava no prédio dos Diários e Emissoras Associadas, o grande edifício que Assis Chateaubriand ergueu para comparar-se ao dos Matarazzo, seus arquiinimigos. Como vingança, Chateaubriand comprou terrenos na Rua 7 de abril e fez um edifício de quinze andares, dois a mais que o dos rivais, com o mesmo mármore da melhor qualidade que eles usaram e com um andar dotado de dois mezaninos de 500 metros quadrados. Ele instalou um museu de arte antiga e moderna, projetado pelo arquiteto Villanova Artigas. Era muita ambição ter um museu dessa importância, com acervo em grande parte adquirido por alto preço. Mas ele conseguiu!

Na Rua: Sete de Abril estava também um clube de artistas e dos amigos das artes, ponto de encontro de escritores, jornalistas, intelectuais, artistas plásticos e boêmios em geral.

domingo, 10 de julho de 2011

Avenida São Luiz

Ainda guarda um ar aristocrático a bela avenida Sâo Luis. Deve ser o grande número de agências de turismo que existem por ali somado a elegante loja da H.Stern da esquina da avenida Ipiranga, além é claro dos imensos edifícios. Nos primeiros anos do século XX, majestosas residências e belos palacetes e solares de famílias quatrocentonas enfeitavam a paisagem de uma área que já havia sido chamada de beco Comprido. O terreno da São Luis pertencia ao senador e barão Francisco Antônio de Sousa Queirós. Tomou o nome de São Luis em 1860, em homenagem ao Bragadeiro Luis Antônio.

Av São Luis

Por um bom tempo, nos anos 1960 e 1970, alguns bares conseguiram manter-se por ali, como o Barba Azul, abrigado quase na esquina com a avenida Ipiranga. Tinha até mesinhas pela calçada, uma beleza. No sentido inverso, na esquina da rua da Consolação, havia um restaurante freqüentado pelos editores de jornais, empresários e homens de negócios. Repórter, só no dia do pagamento, e olhe lá! (1).

Essa via pública remonta aos tempos primitivos da cidade. Teve a denominação, antigamente de Beco Comprido.

É uma rua tradicional, das primeiras que se formaram ligando a Consolação à Vila Buarque.Faz parte do bloco do qual se originou a rua Araujo, “trecho do antiqüíssimo caminho colonial que ligava o centro da cidade ao Rio Pinheiros”

A rua São Luis foi uma das mais bem nascida no bairro da Consolação no ano de 1828, cujo nome deveu à Irmandade de Nossa senhora da Consolação.

Tornou-se a avenida que hoje conhecemos para amarrar o círculo de ligação urbanístico, irradiadora da metrópole idealizado pelo Plano de Avenidas do então prefeito Prestes Maia.(2)

(1)Todos os Centros da Paulicéia – Ponciano, Levino

(2) São Paulo de Outrora Evocações da metrópole – Moura, Paulo Cursino

 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Rua 24 de maio

São Paulo de outrora, Evocação da metrópole-Moura Paulo Cursino

A 24 de maio de 1866, aconteceu uma das mais duras batalhas, que mencionam os militares da América meridional. Travou-se m Tuiuti perto do acampamento entrincheirado de Rojas, donde os paraguaios saíram com todo o seu poder de fogo. A vitória foi nossa, ficando mortos no campo número de inimigos superior a três mil.Rua 24 de maio

O general Osório, então já nomeado Barão de Herval, sentindo-se enfermo, retirou-se da campanha e passou o comando do exército ao marechal de campo Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão, depois Visconde de Santa Teresa, que assumiu a 15 de julho.

Abatalha de tuiuti foi, efetivamente, a mais completa realização militar na guerra contra Lopez, e tanto que teria posto fim às hostilidades, se o general em chefe do exército aliado, Mitre, tivesse concordado com a dercisão do general em chefe do exército brasileiro Osório. Este, disciplinado como era, apesar dos seus galões na hierarquia militar, não contrariou a opinião do general argentino, comandante de todos os exércitos em luta, em virtude do tratado de aliança. Se o tivesse contrariado as ordens e perseguido os retirantes em território paraguaio, teria infligido derrota completa e irremediável, teria posto fim a guerra, teria antecipado de quatro anos a empolgante tragédia que só se consumou em 1º de março de 1870. Mas, a estratégia do grande militar argentino, apoiada, não há dúvida, na boa fé e na prudência, evitou a audaciosa e estupenda arremetida que Osório, possuído do fogo do ideal, sonhou realizar, num repente, para a conquista do galardão da vitória. Da recusa ao sonho do mais extraordinário guerreiro do Paraguai, veio toda conseqüência de males , de privações, de vidas tombadas, do sacrifício da nação, em quatro anos a mais de guerra, guerra que atrasou de 30 anos o progresso do Brasil.

O general Osório se retirou do campo da luta por briga entre ele e Mitre, por causa de Tuiuti. Para ele, Osório, a guerra estava terminada. Retirava-se e os outros que brigasse. Aqueles que tinham prazer em derramar sangue dos próprios patrícios e dos vizinhos.

domingo, 19 de junho de 2011

Rua Conselheiro Cripiniano

A rua recorda e perpetua esse nome respeitabilíssimo gravado na placa azul, lido por São Paulo inteiro diariamente, num trecho curto da via pública, perambulando por um milhão de haConselheiro Crispiniano 1900bitantes.

Oriundo de estirpe humilde, João Crispiniano Soares nasceu a 24 de julho de 1809 na vilinha de Guarulhos, foi o Conselheiro Crispiniano um dos mais privilegiados filhos na própria terra.

Não lhe faltou inteligência, nem honorabilidade, nem compostura, nem patriotismo. Nada lhe faltou. Reuni em si, um homem de governo tanto predicado conjunto, é privilégio máximo.

Iniciou a sua vida servindo em empregos secundários na Tesouraria da Fazenda. Com grandes dificuldades matriculou-se na Faculdade de Direito, tornando-se logo um dos mais distintos alunos e merecendo, no seu 3º ano um prêmio de mérito literário. Bacharelou-se em 1834 e defendeu tese em 1835, conquistando o título de doutor. Em 1836 foi nomeado professor da mesma Faculdade, lecionou Prática até ser escolhido para reger a cadeira de Direito Romano, em que muito se distinguiu pela sua vasta cultura jurídica. Fora da Academia também exerceu brilhantemente vários cargos. Foi inspetor da Tesouraria, delegado de Polícia e juiz municipal suplente. Em 1854 presidiu a Província de Mato Grosso, em 1863 a de Minas Gerais, em 1864 a do Rio de Janeiro, e a de São Paulo de 7 de novembro de 1864 a 18 de julho de 1865. Foi ainda vereador, deputado e presidente da Câmara Municipal de São Paulo nos anos de 1838 a 1847, deputado da Assembléia Geral por Mato Grosso em 1848. Na presidência de São Paulo prestou assinalados serviços e foi o organizador do batalhão de voluntários paulistas conhecido pela denominação de 7º, que primeiro marchou deste Estado para as campanhas do Paraguai. Em 1873 aposentou-se no cargo de professor da Faculdade. Faleceu em São Paulo em 15 de agosto de 1876.

Foi presidente liberal, filiado ao partido desse nome das províncias mais em prosperidade na infância do Brasil independente. Foi presidente de Mato Grosso, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo, quase sem solução de continuidade, nomeado pela clarividência do velho Imperador, como que para fertilizar, com sua prudência e com o seu saber, as administrações incipientes desses importantes esteios da nacionalidade brasileira.

No governo de São Paulo, como seu 31º presidente, mostrou-se inexcedível de zelo patriótico. Coincidindo a sua ação governamental com da guerra do Paraguai, em 1865, organizou o primeiro batalhão de voluntários, incorporado sob a denomi nação de 7º, no exército nacional.

No dia de sua morte, os dois jornais mais em evidência, então editados, Correio Paulistano e a Provincia de São Paulo, publicaram extensos necrológios ao grande paulista. Onde se lia: “Elevando-se tanto e nobilitando o seu nome, é João Crispiniano o mais vivo exemplo do que pode conseguir na sociedade, o trabalho, quando as virtudes o acompanham e consolidam.”

A rua Conselheiro Crispiniano foi aberta em terrenos do Morro do Chá, propriedade do Barão de Itapetininga. No dia 21 de Abril de 1863, a Câmara Municipal autorizou a desapropriação de terrenos para a abertura de uma rua entre o Largo do Paissandú e até a antiga rua da Palha, chamada depois de Sete de Abril. Em 1873, esta rua ainda não estava aberta e, por proposta do Ten. Cel. Fernando Braga, a Câmara determinou a direção desta rua que partiu do Largo do Paissandú pelo lugar já demarcado e saiu ao lado de onde se localizava a Chácara do senador Queiroz. Em 1904, a Prefeitura concedeu favores fiscais para os proprietários de terrenos nesta rua para que pudessem edificar visando a ocupação de espaços vizinhos ao Teatro Municipal.

São Paulo de Outrora Evocações da Metropole- Moura Paulo Cursino

História das ruas de São Paulo- Arquivo Histórico Municipal.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Largo dos Piques

São Paulo de Outrora; Ecocações da Metropole- Moura Paulo Cursino de

Ali no largo dos Piques era onde os mercadores de escravos faziam suas vendas.

O leilão de escravos é ali , ao meio-dia, ao som do dobre do sino de São Francisco, no outro lado da encosta.

Nenhum outro lugar mais propício. A elevação da subida , com patamar largo circundado pelo paredão, põe destaque a corte enfileirada da “mercadoria” negra, representada pelos cativos .Largo dos Piques

Ali ficavam em destaque, numa “vitrine” de trevas, à exposição da cobiça dos compradores.

Na hora aprazada, o meirinho do Ouvidor anuncia, solenemente, a manada. Reboliço. Emoção. Os pretendentes, raspando a espora no lagedo, o chicote batendo a bota luzidia, passam em revista os licitados, na atitude de uma arrogância canalha. À passagem, murmúrios, que saem de um incógnito de temores e de incerteza.

Começa a licitação.

A voz cavernosa do pregão, os lances vão subindo à medida das simpatias, das aptidões, da saúde, da força bruta ou das habilidades dos negros licitados.

A saída, após a arrematação, é o desespero. Pais que se separam dos filhos, maridos de mulheres, crianças dos braços maternos para seguirem cabisbaixos e mudos, os donos vários que os compraram.

O largo dos Piques é, em pessoa, a velharia da cidade. Recordação máxima do São Paulo de outrora, nasceu ele com a cidade.

Viveu desde a primeira descida, na encosta abrupta, do irmão Afonso Braz, o mais antigo arquiteto de São Paulo, filho de Loiola e companheiro dpos fiundadores Anchieta, Nobrega e Manuel Paiva.

No vale profundo do riacho histórico, na confluência das várias vadeiras, São Paulo, saciando, em todos os tempos, na água generosa e boa do tanque Reúno, no Bexiga.

A única lembrança do passado é a “pirâmide” ereta firme, ascencional.Largo dos Piques1

A denominação “Piques” acompanha a história da cidade desde tempos imemoriais. Vemos a nomenclatura ser usada por todos os historiadores. Nada, porém, sobre a procedência do nome.

A Pirâmide. Monumento tradicional, talvez o único secular da cidade.

Data de 1814. A sua construção, nesse ano, foi simplesmente sem importância, Comemorou o término feliz de um governo provisório composto do Bispo d. Mateus de Abreu Pereira, ouvidor D. Nuno Eugênio de Lossio e Scilbz e chefe da esquadra Miguel José de Oliveira Pinto e o regozijo do povo pela cassação da seca desse ano. O marco foi criado como baliza do desbravamento da rotina e entrada do progresso.

O engenheiro marechal Daniel Pedro Müller foi incumbido da construção da estrada do Piques e adotou como ponto de partida, a Pirâmide histórica, com inteira aprovação do governo, que como marco comemorativo o consagrou em 17 de outubro de 1814.

Da antiga fonte que matava a sede de gentes e bichos, não sobrou nada. Em seu lugar simbólico, o conjunto escultórico do arquiteto Victor Dubugras, inaugurado em 1922, mas atualmente desligado e seco. Na última "adaptação" sofrida pelo largo a escadaria que levava ao obelisco e ao chafaris foram substituidos por rampas. A falta de uma atividade permanente no uso da praça colabora para o aumento do número de pixações na estrutura deste que é o conjunto histórico mais antigo do centro da cidade.